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domingo, 20 de junho de 2010

Cura de cego de nascença. João 9, 1 - 41.

Nos meus dias de faculdade, aprendi muitas coisas, pois, tive grandes mestres os quais terão a minha eterna admiração. Muito do que aprendi eu carrego comigo e partilho sempre que possível, e este texto do “cego de nascença” é um destes casos. Em uma das minhas aulas meu professor dizia o quanto era importante perceber as diferentes movimentações dos elementos nos textos.
Recentemente escrevi um texto do “endemoninhado geraseno” e a movimentação dos acontecimentos eram semelhantes a uma explosão, ela percorria para todos os lados e de uma maneira ou de outra atingia a todos. De certa forma é sempre assim nos textos bíblicos. Mas nesta analise primeiramente vamos observar os movimentos que acontecem com este homem que nasceu cego.
Ele é judeu e caminha às margens de sua religião, por ser um pecador sem perdão e sem saber o que fez ou o que fizeram.
Cada ciência tem uma linguagem própria e o termo para isso é “Epistemologia”, e a palavra “pecado” para um teólogo significa o mesmo que a palavra “erro” para um sociólogo. Tenha isso em mente, ao ler o texto abaixo, acredito que assim ficará mais fácil a compreensão do mesmo, pois, trata-se de um problema de ordem social.
João (9, 1 – 41) Cura de cego de NascençaAo passar, Ele viu um homem, cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus.
Enquanto é dia, temos de realizar as obras daquele que me enviou; vem a noite, quando ninguém pode trabalhar .
Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.
Tendo dito isso, cuspiu na terra, fez lama com a saliva, aplicou-a sobre os olhos do cego e lhe disse: “Vai lavar-te na piscina de Siloé – que quer dizer ‘Enviado’”. O cego foi, lavou-se e voltou vendo claro.
Os vizinhos, então, e os que estavam acostumados a vê-lo antes, porque era mendigo, diziam: “Não é esse que ficava sentado a mendigar?” Alguns diziam: “É ele”. Diziam outros: “Não, mas alguém parecido com ele”. Ele, porém, dizia: “Sou eu mesmo”. Perguntaram-lhe, então: “Como se abriram teus olhos?” Respondeu: “O homem chamado Jesus fez lama, aplicou-ma nos olhos e me disse: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Fui, lavei-me e recobrei a vista”. Disseram-lhe: “Onde está Ele? Disse:  “Não sei”.
Conduziram o que fora cego aos fariseus. Ora, era sábado o dia em que Jesus fizera lama e lhe abriram os olhos. Os fariseus perguntaram-lhe novamente como tinha recobrado a vista. Respondeu-lhes: “Ele aplicou-me lama nos olhos, lavei-me e vejo”. Diziam, então, alguns dos fariseus: “Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado”. Outros diziam: “Como pode um homem pecador realizar tais sinais?” E havia cisão entre eles. De novo disseram ao cego: “Que dizes de quem te abriu os olhos?” Respondeu: “É profeta”.
Os judeus não creram que ele fora cego enquanto não chamaram os pais do que recuperara a vista e perguntaram-lhes: “Este é vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que agora ele vê?” Seus pais então responderam: “Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. Mas como agora ele vê não sabemos; ou que lhe abriu os olhos não sabemos. Interrogai-o. Ele tem idade. Ele mesmo se explicará”. Seus pais assim disseram por medo dos judeus, pois os judeus já tinham combinado que, se alguém reconhecesse Jesus como Cristo, seria expulso da sinagoga. Por isso, seus pais disseram: “Ele já tem idade; interrogai-o”.
Chamaram, então, a segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: “Dá glória a Deus! Sabemos que esse homem é pecador”. Respondeu ele: “Se é pecador, não sei. Uma coisa eu sei: é que eu e era cego e agora vejo”.
Disseram-lhe, então: “Que te fez ele? Como te abriu os olhos?” Respondeu-lhes: “Já vos disse e não ouvistes. Por que quereis ouvir novamente? Por acaso quereis também tornar-vos seus discípulos?” Injuriaram-no e disseram: “Tu, sim, és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés; mas esse, não sabemos de onde é”. Respondeu-lhes o homem: “Isso é espantoso: vós não sabeis de onde ele é e, no entanto, abriu-me os olhos! Sabemos que Deus não ouve os pecadores; mas, se alguém é religioso e faz a sua vontade, a este ele escuta. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de cego de nascença. Se esse homem não viesse de Deus, nada poderia fazer”. Responderam-lhe: “Tu nasceste todo em pecado e nos ensinas?” E o expulsaram.
Jesus ouviu dizer que o haviam expulsado. Encontrando-o, disse-lhe: “Crês no filho do homem?” Respondeu ele: “Quem é, Senhor, para que eu nele creia?” Jesus lhe disse: “Tu o vês, é quem fala contigo”. Exclamou ele: “Creio, Senhor! E prostrou-se diante dele.
Então disse Jesus: “Para um discernimento é que vim a esse mundo: para que os que não vêem , vejam, e os que vêem, tornem-se cegos”.
Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: “Acaso também nós somos cegos?”
Respondeu-lhes Jesus: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas dizeis: ‘Nós vemos!’ Vosso pecado permanece.”.
João nos apresenta um grande sinal: “... é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus.”, um milagre nunca realizado antes, aquele homem cego em momento algum pediu para que Jesus o curasse, mesmo porque ele não tinha esperança que Jesus pudesse fazê-lo, pois, na história daquele povo, nuca havia acontecido de um cego de nascença vir a enxergar, além disto ele aprendeu de seus pais que, estava pagando pelos pecados de seus ancestrais e o preço era passar toda a sua vida como cego - aqui temos o conformismo, ausência de fé. O que conta aqui é apenas a vontade de Deus apontando para Jesus.
Geralmente quando Jesus realiza algum milagre de cura suas palavras são: “Tua fé te salvou, esteja curado”, são dois movimentos: a cura e a salvação. Esta fórmula não acontece nesta passagem, porque não houve a procura do necessitado, aquele homem estava no Caminho de Jesus, como alguém que fora colocado ali, como quem fora colocado pela mão de Deus - “Ao passar, Ele viu um homem, cego de nascença.”. Seria o equivalente a dizer que: “era necessário que isso acontecesse” que é o equivalente ao dito por Jesus: “mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus.”.
Olhando isoladamente para o cego de nascença iremos perceber em suas respostas uma conversão contínua que inicia com um conformismo mórbido que vai se transformando até o seu clímax, aos pés de Jesus, para percebermos melhor vou transcreva-las abaixo isoladamente:
(9, 12) “Onde está Ele? Disse:  “Não sei”;
(9, 17) “Que dizes de quem te abriu os olhos?” Respondeu: “É profeta”;
(9, 24 - 25) “Sabemos que este homem é pecador”. Respondeu ele: “Se é pecador, não sei. Uma coisa eu sei: é que eu e era cego e agora vejo”.
(9, 26 - 27) “Que te fez ele? Como te abriu os olhos?” Respondeu-lhes: “Já vos disse e não ouvistes. Por que quereis ouvir novamente? Por acaso quereis também tornar-vos seus discípulos?”;
(9, 35 - 38) “Crês no filho do homem?” Respondeu ele: “Quem é, Senhor, para que eu nele creia?” Jesus lhe disse: “Tu o vês, é quem fala contigo”. Exclamou ele: “Creio, Senhor! E prostrou-se diante dele.".
Se percebermos, as suas resposta vão nos mostrando que a conversão daquele homem, parte de um “não sei”,  passa por um “é profeta”, se transforma em “mestre”  (“quereis também tornar-vos seus discípulos?”) e finaliza em um sonoro “Creio, Senhor”. E aquele homem se da conta da divindade de Jesus e ele se prostra diante dos seus pés.
Esta passagem é muito rica em questões sociopolíticas e religiosas, aqui tudo fica ao inverso, os verdadeiros cegos aqui são os fariseus fundamentalistas, e estes sim pagam pelos erros dos seus ancestrais, é o preço da ignorância nós sempre pagamos muito caro e depende de nós impedirmos que este ciclo vicioso se repita com as nossas futuras gerações.
Idéias fundamentalistas sempre existiram e elas são tão perigosas que Jesus afirma que a sua vinda foi para ajudar-nos a discernir, ou seja, para enxergarmos. Textos como: Êxodo (20, 5ss e 34, 7ss), Deuteronômio (5, 9 – 10) “Não te prostrarás diante desses deuses nem os servirás, porque eu, Iahweh teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniqüidade dos pais sobre os filhos, até a terceira e a quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.”. Quando em nossa ignorância, ensinamos uma idéia falsa de Deus (que é o mesmo que apresentar falsos deuses), esta idéia segue em nossas gerações, e é este o castigo, este é o preço. Quando assim o fazemos nós cegamos as nossas gerações, (cegos guiando cegos). As exatas palavras de Jesus são: “Para um discernimento é que vim a esse mundo: para que os que não vêem , vejam, e os que vêem, tornem-se cegos” No Aurélio a definição para “discernimento” é: s.m. Ação ou faculdade de discernir. / Juízo, entendimento, critério.
Qual é o critério que nós utilizamos, o de ouvir sem o menor questionamento tudo o que o, padre, pastor, bispo, sacerdote, pai de santo, ministro ou seja lá quem for, disser? Além disso tem um outro problema, eles estão ensinando para os nossos filhos. Não quero generalizar e nem dizer que a culpa é toda dos acima mencionados, mesmo porque, esta culpa é nossa o que nos torna também cegos, e neste ciclo o castigo continua como uma maldição.
No entendimento dos antigos isto é um castigo de Deus, e Jesus está aqui nos mostrando que este castigo é fruto da nossa falta de discernimento, aceitar passiva e pacatamente. Então somos nós castigando a nós mesmos e Deus não tem nada com isso. 
Se você disser a Jesus que Ele é o seu rei. Com certeza a próxima pergunta será: Por que? Respostas como: Porque minha mãe, ou o bispo, me disse. Esta resposta não será aceita, porque é você e o seu coração é que tem que elegê-lo.
Temos que ter discernimento, os fariseus representavam o poder religioso e no entanto quem não tinha entendimento ou critério eram eles, por causa de falsos ensinamentos como: “Deus castiga”, “a ira de Deus cairá sobre vocês”, “você paga pelo pecado dos seus pais”, entre muitos outros.
Aqui em João, Jesus está nos dizendo que: Todo o peso do que cai sobre nós é causa e efeito daquilo que fizemos ou permitimos (voto, lideres, poder religioso, guerras, terrorismos de todos os tipos, fome, violência ...), as pessoas poderosas só o são porque nós consentimos. O que teria feito, Stalin e Hitler, sem apoio. E o massacre do povo Armênio ou Ruanda, o Apartheid, a miséria de Uganda, Afeganistão e o Paquistão, isso tudo não teria acontecido se as pessoas não tivessem apoiado ou passado uma “vista grossa” – o que dá no mesmo. Demos as costas para tudo isso, fingimos que não temos nada com isso, cegos é o que somos, em um momento ou em outro, sempre somos.
Deus é amoroso, justo e verdadeiro, e este verdadeiro Deus é que devemos entender, temos que discernir o certo e o errado e somente isso já nos é complicado até os dias de hoje!
A conclusão para esta passagem e reflexão, são as próprias palavras de Jesus: João (9, 39 – 41) Então disse Jesus: “Para um discernimento é que vim a este mundo: para os que não vêem, vejam, e os que vêem, tornem-se cegos”.
Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: “Acaso também nós somos cegos?”
Respondeu-lhes Jesus: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas dizeis: ‘Nós vemos!’ Vosso pecado permanece,”.


Seja lá como for a sua conversão, cuide para que ela seja alicerçada no discernimento e também continuamente amadurecida.


Quadro (detalhe): Carlos Araujo - "Cura de cego de nascença" Bíblia - Citações"